Realizou-se ontem, dia 15 de Setembro, a cerimónia de descerramento da placa toponímica da Rua Bispo de Cochim e a inauguração de três novas ruas e dois largos: Rua da Fábrica de Tecidos Lisbonenses, Largo da Fábrica de Fiação de Xabregas, Largo da Fábrica de Tecidos Oriental, Rua da Fábrica das Moagens e Rua da Fábrica da Estamparia, na antiga zona industrial de Xabregas, uma iniciativa da responsabilidade da Câmara Municipal de Lisboa.
D. Joseph Kureethara, bispo de Cochim, homem tão culto e atento quanto persistente e hábil, aberto à história e ao diálogo inter-cultural entre os povos indiano e português, deixou uma marca profunda na história, ao empenhar-se na preservação do património histórico e religioso da diocese de Cochim e ao defender a herança cultural portuguesa na Índia.
A diocese de Cochim, situada a sul, no Estado de Kerala, conta com 200.000 católicos, cerca de 84 sacerdotes e diversas ordens religiosas, instaladas em 40 conventos. A história desta diocese começa com a chegada dos missionários portugueses à Índia em 1498, juntamente com Vasco da Gama.
O bispado de D. Joseph Kureethara caracterizou-se pelo desenvolvimento da diocese na esfera social, cultural e religiosa. Fundou várias instituições, entre as quais se contam institutos de assistência social, uma faculdade, escolas, hospitais e casas de repouso, paróquias e igrejas. Empenhou-se na concessão de facilidades a pessoas com dificuldades económicas, em campanhas de promoção de direitos às mulheres, idosos e desempregados. No que respeita à sua acção cultural, o seu episcopado ficou marcado pela prevenção do património histórico e antropológico, tendo impulsionado a recolha e a conservação de objectos, monumentos e tradições locais. D. Joseph Kureethara viria a falecer em 1999, com 70 anos de idade, 40 de sacerdócio e 23 como Bispo. Em homenagem à sua acção ao serviço da cultura portuguesa, foi agraciado com a Ordem do Infante D. Henrique em 1995, pelo então Presidente Mário Soares.
Fábricas do Beato
Após a revolução liberal de 1832-34 e a extinção das ordens monásticas, começou a transformação do mundo rural de Xabregas e Beato, através da instalação na zona das primeiras unidades industriais que aproveitaram os antigos edifícios religiosos, fazendo com que, no final do séc. XIX, laborassem já cerca de 1.000 operários nas fábricas do Beato.
A Companhia de Fiação de Tecidos Lisbonense foi a primeira a instalar-se em Xabregas, no Convento de S. Francisco de Xabregas, no período de 1838-42, com fiação e tecelagem. Um gigantesco incêndio deflagrou nesta fábrica em 1844 mas manteve-se no local até 1846, tendo funcionado nos últimos dois anos no Palácio Marquês de Niza, sendo o espaço original cedido em 1845-49 à fábrica da Companhia de Tabacos que se manteve no edifício até ao séc XX.
A Fábrica de Fiação de Xabregas foi fundada em 1854, perto da secular Fonte da Samaritana, no Beco dos Toucinheiros. A laboração da fábrica começou em 1858, depois de se constituir em Companhia de Fabrico de Algodões, como uma unidade mecanizada de fiação de algodão. Ali trabalhavam 150 pessoas, aumentando esse número para 513 por volta de 1890. Os seus proprietários mandaram edificar para os seus trabalhadores, em 1867 e 1877, as primeiras vilas operárias de Xabregas, construindo em 1887-88 outras duas, sendo uma destinada aos mestres e contramestres e outra aos operários. Esta fábrica funcionou até 1948, data do último incêndio, numa altura em que fornecia os Grandes Armazéns do Chiado.
A Fábrica de Fiação de Tecidos Oriental da Companhia Oriental de Fiação e Tecidos foi fundada em 1888, no nº 20 da Rua de Xabregas – hoje um centro comercial com o janelão de ferro e a vidraça da antiga fábrica a servir de portal -, iniciou a laboração com 425 operários e era conhecida como Fábrica das Varandas.
A Fábrica de Moagens a Vapor Aliança, mais conhecida simplesmente como Fábrica Aliança, estabeleceu-se em Xabregas em 1870. Em 1898 empregava 50 operários e os seus armazéns no final de Oitocentos tinham capacidade para 39 mil hectolitros de cereal. O dono desta fábrica viria a obter, em 1849, de D. Maria II, por proposta do Duque de Saldanha, o privilégio de usar a marca Nacional nos produtos da sua empresa que se transformou, em 1919, na Companhia Industrial Portugal e Colónias, sendo a sua designação desde 1986, “Nacional – Companhia Industrial de Transformação de Cereais, AS”.
A Fábrica de Estamparia nasceu na actual Rua Gualdim Pais, na 2ª metade do séc. XIX. Esta especialização no sector da estamparia, ao qual se anexou o da tinturaria, manter-se-á em Chelas até aos inícios do último quartel do séc. XX, sendo a Tinturaria Portugália a última empresa sobrevivente.
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